sexta-feira, 29 de março de 2013

IV A VIDA POLÍTICA E MESSIÂNICA DE JESUS - 4. JESUS O MAGO.

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A bowl newly discovered in Alexandria, Egypt, and dated to the period from the late second century BCE to the early first century CE bears an engraving that may be the world’s earliest known reference to Jesus Christ. The engraving reads dia chrstou ogoistais, translated by the excavation team as “through Christ the magician.” According to French marine archaeologist Franck Goddio, co-founder of the Oxford Center of Maritime Archaeology, and Egyptologist David Fabre, the phrase could very well be a reference to Jesus Christ, since he was one known as a primary exponent of white magic.

The claim that Jesus' miraculous activity was merely magical is a widely reported Jewish polemic. Justin accuses the Jews of such a charge: Yet when they saw these things come to pass they said it was a display of magic art, for they even dared to say that He was a magician and deceiver of the people.

Celsus brings up the subject several times. The first time, the Jew only concedes for the sake of argument that Jesus did miracles: Well, let us believe that these (miracles) were actually wrought by you … (the

Jew then compares Jesus' miracles to the tricks of magicians) …. Since, then, these persons can perform such feats, shall we of necessity conclude that they are "sons of God," or must we admit that they are the proceedings of wicked men under the influence of an evil spirit?

Later he argues against the Christians' claim that the miracles indicate Jesus' deity: Jesus in your Gospels warns about those who will follow doing similar miracles but being wicked. How then are his works evidence of his divinity?

En ella se burla de Jesucristo, diciendo que habría sido hijo de una judía amancebada con un soldado romano, que habría practicado la magia que aprendió en Egipto y que por eso se ganó unos cuantos discípulos de entre la plebe más miserable y digna de compasión. Sin embargo, para Celso el argumento más fuerte en contra de Cristo es su humillante muerte en la cruz, absolutamente indigna de una divinidad. Compara luego los relatos de la resurrección con los que circulaban de otros personajes de la cultura griega. -- Discurso sobre la verdad de Celso.

“On the eve of the Passover Yeshu was hanged. For forty days before the execution took place, a herald went forth and cried, ‘He is going forth to be stoned because he has practiced sorcery and enticed Israel to apostasy. Any one who can say anything in his favour, let him come forward and plead on his behalf.’ But since nothing was brought forward in his favour he was hanged on the eve of Passover.” -- The Babylonian Talmud, trans. I. Epstein (London: Soncino, 1935), 27:281.

Se a crença no disparate não torna o absurdo viável pelo menos permite desviar a atenção dos desígnios dos mistérios ocultos por detrás do engenho e da arte humana e fazer a fortuna dos que se ficam pelas artes mágicas! Hoje em dia a magia será uma arte menor e inócua, tanto de espectáculo feita quanto de suor científico e tecnológico, quão ainda de esmerado artifício de prestidigitação, mas em tempos antigos ela seria a máxima expressão do engenho e do saber humano que reuniria todas as capacidades humanas natas e adquiridas, desde o génio e carisma pessoal até ao saber de experiência feito e muito de longamente apreendido por iniciação secreta, transmitida de forma unipessoal. Jesus era mais do que um mero feiticeiro de província pois era um mestre e um candidato messiânico essénico ou seja um sumo-sacerdote imbuído da tradição persa com a qual os essénicos se relacionavam, como o atesta a tradição mandeiena.

Mateus, Os magos do Oriente. 2 1 E, tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Heródes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, 2 e perguntaram: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos a adorá-lo. 3 E o rei Heródes, ouvindo isso, perturbou-se, e toda a Jerusalém, com ele. 4 E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo. 5 E eles lhe disseram: Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta: 6 E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as {ou príncipes} capitais de Judá, porque de ti sairá o Guia {ou Governador} que há de apascentar o meu povo de Israel. 7 Então, Heródes, chamando secretamente os magos, inquiriu exactamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera. 8 E, enviando-os a Belém, disse: Ide, e perguntai diligentemente pelo menino, e, quando o achardes, participai-mo, para que também eu vá e o adore. 9 E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino. 10 E, vendo eles a estrela, alegraram-se muito com grande júbilo. 11 E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, lhe ofertaram dádivas: ouro, incenso e mirra. 12 E, sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Heródes, partiram para a sua terra por outro caminho.

Obviamente que esta história pode ser apenas um pálido reflexo da acção dos serviços de informação de sacerdotes magos, com os quais os dissidentes essénicos teriam amistosas relações, sobre o nascimento do candidato essénico judeu e o possível cruzamento destas com a contra-informação de Herodes. Este teria em relação a estes dissidentes a mesma antipatia política que já vinha do tempo dos Macabeus desde que estes se afastaram e afirmaram como linha sadoquista do acesso ao sumo sacerdócio, o que, é quase seguro, iniciou o aparecimento autónomo do messianismo essénico.

A história mitológica da “visita dos reis magos” a Belém é substituída em Lucas pela dos pastores pelo que é quase seguramente uma colagem retórica tardia de piedosos cristãos que queriam que Jesus rivalizasse com o presépio de Mitra mas o facto de ela ter sido aceite no mais clerical dos evangelhos só prova que não repugnava aos primeiros cristãos que Jesus tivesse tido no berço boas relações com reis e magos vindo do oriente. Tal como os pictos e os godos a norte, a Pérsia, eterna rival dos gregos, foi a ocidente um dos únicos povos das suas fronteiras que os romanos nunca conquistaram e, portanto um inimigo natural deste império, pelo que teria sido arriscado ao evangelista ou aos sensores posteriores de Mateus, terem explicitamente identificado os magos com a pérsia. Aliás, toda a questão judaica da época romana anda mal interpretada pela simples razão que passa sempre inadvertido o facto de que, se a linha de clivagem da fronteira oriental do império romano não passava pela Judeia, teria neste povo fortes aliados que vinham do tempo de Ciro.

“Ora os nossos antepassados construíram este templo na fortaleza de Elefantina nos tempos idos do reino de Egipto, e quando Cambises veio para o Egipto já ele o encontrou construído. Eles (os persas) derrubaram todos os templos dos deuses de Egipto, sem que ninguém causasse qualquer dano a este templo".[1]

Obviamente que o estatuto real é um típico exagero ao estilo de Mateus. Porém, os “reis magos” nunca poderiam ter sido senão emissários do rei da Pérsia porque magos eram os mais altos sacerdotes da cultura avéstica de que o cristianismo herdou grande parte da liturgia solar, não apenas por mera cópia do mitraísmo mas porque este teria influenciado naturalmente alguns ramos esotéricos judaicos aquando do cativeiro babilónico. De resto, há tradições apócrifas, senão mesmo falsas, que referem que Jesus foi educado por orientais tendo mesmo aprendido a cultura hindu.

10 When Issa had attained the age of thirteen years, the epoch when an Israelite should take a wife, 11 The house where his parents earned their living by carrying on a modest trade began to be a place of meeting for rich and noble people, desirous of having for a son-in-law the young Issa, already famous for his edifying discourses in the name of the Almighty. 12 Then it was that Issa left the parental house in secret, departed from Jerusalem, and with the merchants set out towards Sind, 13 With the object of perfecting himself in the Divine Word and of studying the laws of the great Buddhas. -- The Life of Saint Issa, BEST OF THE SONS OF MEN[2]

The first Muslim writer known to have included the tradition of Jesus having traveled to India in his youth with the tradition that he, as Yuz Asaf, had traveled in southwest Asia in the latter half of the first century, was the 10th-century historian, Shaikh Al-Said -- 41. Shaikh A-Said-us-Sadiq, Kamal-ud-Din (Iran:Syed-us-Sanad Press, 1782) 357-358. See K. N. Ahmad, Jesus in Heaven on Earth, 365-366.

No entanto, a tradição rabínica aponta para a possibilidade de Jesus ter aprendido magia no Egipto o que pode ser uma forma de estes dizerem que Jesus era um terapeuta essénico e, quem sabe, um aluno de Filo. Obviamente que, como este expoente eminente do platonismo judaico de Alexandria foi sempre um judeu ortodoxo, apesar de ter sido mais tarde idolatrado pelos doutores da Igreja, este nunca terá encontrado relevância neste dissidente essénico, razão porque não se refere a ele nos seus escritos o que muito irrita os historiadores jesuítas e muito alegra os que negam a historicidade de Jesus. Quanto às relações de Flábio Josefo com Jesus o melhor é estudar o assunto em momento próprio!

 

Ver: FLÁBIO JOSEFO E JESUS (***)

 

According to Philo, a learned writer of the first century A.D., there had existed for many centuries before that date communities called Essenes, very learned bodies of students, whose chief characteristics were love of God, love of virtue, and love of mankind; and their methods of demonstrating these virtues made them greatly beloved. Within this outer body was an inner School called Therapeutæ, or wisdom-lowers, who devoted themselves to the study of the super- and sub-physical Nature, and to the understanding of the highest elements of health for both souls and bodies. (Fragments of a Faith Forgotten, by G. R. S. Mead. p. 66.)

Quem terá sido no Egipto o mestre de Jesus uma vez que a tradição rabínica deixou bem claro na sua tradição, durante muito tempo oculta dos cristãos por receio da inquisição mas hoje disponível para todos, que Jesus aprendeu magia no Egipto?

Quando João [Hircano?] matava os rabinos, Yehoshua ben Perachiah e Yeshu fugiram para Alexandria no Egipto. Quando depois veio a paz o rabino Shimeon ben Shetach mandou chama-lo (...) Yeshu partiu, pegou numa telha e se inclinou diante dela [adorando-a?]. (…) Yeshu [o Nazoreo] praticava magia e enganou e conduziu Israel para fora do caminho certo. Talmud Shabbat 107b, Sotah 47a.

João Hircano, se deste se trata, viveu 100 anos antes do suposto nascimento oficial de Jesus e esta afirmação do talmude judaico pode assim estar ferido de morte em termos de fidedignidade. No entanto há quem, do lado cristão também considere que Jesus pode ter nascido 100 anos antes do que se supões e quem, por outros lados, aceite que o talmude possa nesta, como todos os textos antigos noutras passagens, ter feito confusão com o “mestre da disciplina” dos essénicos de que falam os rolos do mar morto. No entanto, o Talmude diz-nos que este facto ocorreu depois do reinado de João Hircano mas não necessariamente logo depois podendo o facto ter-se mesmo reportado a data incerta posterior ao reinado de Hircano II o que começa a aproximar-se do tempo de Jesus. O interessante é verificar que Shimeon ben Shetach pode ter sido Simeão do evangelho de Lucas.

Lucas, 2: 25 Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. 26 E fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor. 27 E, pelo Espírito, foi ao templo e, quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com ele procederem segundo o uso da lei, 28 ele, então, o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse: 29 Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, 30 pois já os meus olhos viram a tua salvação, 31 a qual tu preparaste perante a face de todos os povos, 32 luz para alumiar as nações e para glória de teu povo Israel. 33 José e Maria se maravilharam das coisas que dele se diziam. 34 E Simeão os abençoou e disse à Maria, sua mãe: Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel e para sinal que é contraditado 35 (e uma espada traspassará também a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.

O judaísmo oficial continha na sua tradição o ódio às práticas de magia herdado de Akenaton que o, reconhecidamente supersticioso povo egípcio praticava de forma generalizada! Porém, que Jesus praticaria magia branca parece seguro porque só assim se explica grande parte da sua fama de taumaturgo e uma parte do seu receio inicial em que os seus poderes fossem conhecidos das autoridades judaicas registado nas constantes manifestações de secretismo típicas do evangelho de Marcos. Porem, que Jesus adorasse uma telha parece pouco plausível uma vez que não se encontraram tais práticas entre os essénicos.

Que podemos nós saber das voltas metafóricas que os rabinos davam aos seus textos cabalísticos quando “estavam com a telha” de maldizer dos cristãos que os maltratavam abaixo de cão? No entanto, não podemos afirmar que sabemos tudo sobre as praticas religiosas dos essénicos, em muitos aspectos pouco ortodoxas mas a tradição trinitário dos cristãos pode ser uma variante do culto a Dosares, o deus bétilo dos nabateus, em tudo semelhante ao deus salvador Osiris que seria afinal a entidade que teria servido de paradigma para a mística salvífica dos cristãos!

Dhu-Shara (Dhushara) = Nabataean deity Anu and Ishtar's son. He despairs and will not attack Anzu after Anzu has stolen the Tablet of Destinies from Ellil. The Mother-goddess of the Nabataeans, Allat, identified with Core by the Greeks, is essentially the North Semitic Ashtart, and the Babylonian Ishtar.

Dosares (lit. “o deus Ares, ou Eros”) era efectivamente Shara, o filho de Istar e Anu, ou seja o “deus menino”, filho de Deus, o deus do amor com que Jesus se veio a identificar ao ponto de os seus seguidores o tomarem por sua encarnação! Na verdade, a teologia atribuída pelos gnósticos a Jesus é de facto um pouco mais politeísta do que o supõe a tese de que no fundamental Jesus teria sido um judeus comum em tudo semelhante a grande parte dos fariseus a que a sua doutrina moral se assemelharia no essencial. Esta tese que será do agrado dos cristãos ortodoxos está, possivelmente muito mais longe da verdade profunda dum Jesus que praticava com os seus discípulos uma doutrina esotérica de mistérios e, em público uma doutrina politicamente correcta, no mínimo próxima do melhor que havia no judaísmo farisaico.

The Pharisees believed in a mixture of predestination and free will (in contradistinction to the Essenes, who were strict believers in predestination) The Pharisees had great popularity with the masses. They believed in the importance of oral tradition, in addition to the written Law of Moses. The believed in an afterlife in which the virtuous are rewarded and the evil are punished. With a few exceptions (Daniel 12, for example), this doctrine is not present in the Old Testament.

 

Ver: OSÍRIS (***)

 

Rabbi Abahu disse: Se um homem vos disser: “Sou Deus” é um mentiroso; se disser: “sou filho do homem” a gente acabará por se rir dele; se disser: “subirei ao céu” di-lo-á mas não o cumprirá. Talmud, Jerusalem Taanith 65 b.

Não sabemos se esta identificação com a divindade terá sido explícita na mente do próprio Jesus ou propalada pelos discípulos a partir de interpretações erradas da sua qualidade de “filho de Deus” mas sabemos que esta suposta identidade de Jesus como Deus foi criticada pelos judeus desde muito cedo fazendo parte da peça acusatória da paixão de Jesus.

They say unto him: He is a sorcerer, and by Beelzebub the prince of the devils he casteth out devils, and they are all subject unto him. (…) Pilate saith to the Jews: Wherefore should he die? The Jews said: Because he called himself the Son of God, and a king. -- The Gospel of Nicodemus

Ora, é bem mais lógico confiar nas improbabilidades naturais, de que a magia é feita, do que ter fé em impossibilidades metafísicas gratuitas!

Obviamente que, por definição, a existirem, os milagres absolutos deveriam ser totalmente óbvios e clarividentes e nunca deveriam necessitar de crentes voluntariosos para os promoverem nem de truques lógicos para os defenderem como mistérios insondáveis de fé. De facto, pensar que Deus possa necessitar da ajuda humana para se justificar é uma blasfémia contra a omnipotência divina!

Enquanto a crença no miraculoso se limitar a factos quase improváveis, mas ainda assim plausíveis, até podemos aceitar que uma definição relativista da impossível possa coexistir com milagres tanto nos limites do razoável quanto no plano da fé! Admitir impossibilidades metafísicas que pretendam subverter as constantes absolutas da ordem física como qualquer uma que, por exemplo, implicasse a possibilidade do “motor eterno” é nem mais nem menos do que transformar o absurdo em critério de fé e isso é lá para quem quiser padecer de “loucura divina” e acreditar em soluções sobrenaturais para as dificuldades da existência mas não para uma pessoa de bom senso nem sequer de senso comum. Quem tem a lucidez de permanecer com os pés bem assentes no chão enquanto se tiver que viver neste mundo das impiedosas leis naturais, sabe também que o milagre absoluto deve ficar reservado para depois da morte!

Na verdade, de todas as leis física conhecidas, a da “morte térmica por entropia termodinâmica” é a mais inexorável pelo que a crença numa ressurreição física literal implica muito mais “loucura divina” e “pecado contra o espírito santo” do que acreditar na transgressão da lei biológica da “omnia célula ex célula” perpetrado pelo dogma a virgindade perpétua de Maria!

Ignorar que, factos muito antigos e mal documentados serão, só por si, de historicidade controversa e que, em particular, a polémica crucificação de Jesus esteja acima de qualquer suspeita de incorrecção técnica é de facto dogmática pastoral de “má-fé” e não é nem sabedoria nem saber de ciência feita! O erro principal da argumentação apostólica tradicional é o de esta utilizar a ciência e a lógica apenas enquanto esta se presta a entorses oportunas que justifiquem os dogmas que professa esquecendo a probidade intelectual e o amor `a verdade que impõe a obrigação de levar a racionalidade até às últimas consequências e o uso rigoroso de toda a ciência experimental disponível. Porém, contrariar a razão e ir contra a sabedoria é “pecado contra o espírito santo” e isso não tem perdão entre gente de “boa fé”!

Depois, há que ser minimamente honesto de entendimento e reparar que a probabilidade de Jesus ter sobrevivido à cruz é afinal duma alta probabilidade já que as 3 horas que Jesus esteve nela não terão sido suficientes para lhe provocarem a morte! De resto, Jesus seria uma pessoa robusta como soía acontecer ao comum dos mortais sujeitos à rudeza da Palestina do seu tempo. Por outro lado, mestre como seria nas artes de curar natural seria que Jesus se tivesse preparado com mezinhas naturais para a provação da paixão! Ora, há nos Evangelhos provas bastantes de que isso aconteceu no “Getsémani”!

 

Ver: GETSÉMANI (***)

 

A CURA DA CRIANÇA EPILÉPTICA

Marcos, 9: 14 E, quando se aproximou dos discípulos, viu ao redor deles grande multidão e alguns escribas que disputavam com eles. 15 E logo toda a multidão, vendo-o, ficou espantada, e, correndo para ele, o saudaram. 16 E perguntou aos escribas: Que é que discutis com eles?

Que disputavam os escribas com os discípulos de Jesus? Nenhum sinóptico se atreveu a regista-lo mas seguramente que a situação não estava a ser agradável para os discípulos que acabavam de ter um dos seus primeiros fracassos na prática de processos de magia em nome de Jesus, ou seja, de acordo com os ensinamentos inovadores da escola terapêutica alexandrina que o mestre lhe andava a ensinar mas que os tradicionalistas judeus ainda desconheciam e, seguramente censuravam.

Marcos, 9: 17 E um da multidão, respondendo, disse: Mestre, trouxe-te o meu filho, que tem um espírito mudo; 18 e este, onde quer que o apanha, despedaça-o, e ele espuma, e range os dentes, e vai-se secando; e eu disse aos teus discípulos que o expulsassem, e não puderam. 19 E ele, respondendo-lhes, disse: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei ainda? Trazei-mo.

Como qualquer mortal, seguro na eficácia inovadora do seu saber terapêutico, Jesus perdeu a estribeiras, quiçá porque os antecedentes políticos que levaram a esta segunda predição da paixão não seriam os mais agradáveis. Jesus teria acabado de saber que andava a ser vigiado e perseguido pelos poderes do Templo e isso deve tê-lo deixado preocupado. Então, mais uma vez igual o seu melhor estilo de liderança, dirigindo-se seguramente para os escribas gritou indignado: “O geração incrédula, até quando vos terei de suportar (a ignorância)? Durante quanto tempo mais me ireis aborrecer (com a vossa arrogante estupidez)?

De certo modo, Jesus demonstra que, quando lhe falaram numa criança possessa dum “espirito mudo” nas condições descritas por Marcos (onde quer que o apanha, despedaça-o, e ele espuma, e range os dentes, e vai-se secando), soube imediatamente pela idade e pelos restantes sintomas que este não seria mais um caso de possessão demoníaca delirante de tipo psicótico esquizofrénico ou de histriónica mediunia por ser uma forma evidente de grande mal epiléptico!

Marcos, 9: 20 E trouxeram-lho; e, quando ele o viu, logo o espírito o agitou com violência; e, caindo o endemoninhado por terra, revolvia-se, espumando.

Na verdade, hoje em dias a maioria dos epilépticos andam medicamente controlados e começam a ser raros os ataques aparatosos de “grande mal” mas, até há bem pouco tempo não seria preciso pesquisar um qualquer dicionário de saúde ou medicina para saber que o endemoninhado do versículo 9:20 de Marcos era um epiléptico a quem a súbita emoção de se encontrar com o famoso Jesus terá desencadeado um novo ataque.

A Epilepsia como uma entidade foi reconhecida até certo ponto desde os tempos de antigo Egipto, mas foi com Hippocrates (400 A.C.) e Galen (+175 D.C.) que um pouco de conhecimento organizado desta doença se começou a acumular.

Epilepsy was well known in ancient times, and was regarded as a special infliction of the gods, hence the names morbus sacer, morbus divas. It was also termed morbus Herculeus, from Hercules having been supposed to have been epileptic, and morbus comitialis, from the circumstance that when any member of the forum was seized with an epileptic fit the assembly was broken up. Morbus caducus, morbus lunaticus astralis, morbus demoniacus, morbus major, were all terms employed to designate epilepsy.

Claro que Jesus, que era um terapeuta alexandrino mas não um médico helenista da escola hipocrática, não se poderia rever nas opiniões de Hipócrates a respeito da epilepsia no seu “tratado sobre a doença sagrada”, apesar de estas antecederam o cristianismo em cerca de 5 séculos, precisamente pelas razões ali apontadas Os primeiros homens a sacralizaram esta enfermidade parecem-me ser os mesmos que agora são magos, purificadores, charlatães e impostores, todos os que se mostram muito pios e plenos de saber.”

Eis aqui o que há acerca da doença dita sagrada: não me parece ser de forma alguma mais divina nem mais sagrada do que as outras, mas tem a mesma natureza que as outras enfermidades e a mesma origem. Os homens, por causa da inexperiência e da admiração, acreditaram que sua natureza e sua motivação fossem algo divino, porque ela em nada se parece com as outras doenças. (...)

Os primeiros homens a sacralizaram esta enfermidade parecem-me ser os mesmos que agora são magos, purificadores, charlatães e impostores, todos os que se mostram muito pios e plenos de saber. Esses certamente escusando-se, usam o divino para proteger-se da incapacidade de fazer valer o que ministram, e, para que não se tornem evidentes sabedores de nada, declaram esta afecção sagrada. (...) Eles impõem tais coisas tendo em vista o aspecto divino, alegando, como grandes sabedores, outras motivações, a fim de que se o doente se tornar são, a glória e a destreza lhes seja atribuída; mas se ele morrer, suas justificativas sejam apresentadas de modo seguro, e pretextem que os causadores não são eles, mas os deuses (...).

Mas esta doença parece-me não ser mais divino do que outras; mas tem sua natureza como outras doenças têm e uma causa que a origina, e a sua natureza e causa só são divinas da mesma maneira que muita outras são, e cura-se nada menos que como outras, a menos que quando, passado muito tempo, se confirmada, e se tornou mais forte que os remédios aplicados. A sua origem é hereditária, assim como a de outras doenças (...)

Mas, de fato, o cérebro é o causador dessa afecção, assim como das outras doenças gravíssimas; de que maneira ocorre e a partir de qual motivação é o que exporei claramente. (...) [ Hp. Morb. 1-2 e 6 ]

Se Jesus alguma vez tivesse lido este texto teria ficado envergonhado e assim se entende porque é que a medicina clássica quase desapareceu na Europa durante a idade média e teria mesmo morrido se os árabes a não tivessem entretanto acarinhado e desenvolvido retornando à Europa no século XIII pelas portas da escola de Salerno, abertas à influência dos árabes da Sicília.

Jesus não poderia ser seguramente um racionalista ao estilo grego na medida em que era um judeu essénico profundamente ligado ao misticismo dos mistérios orientais e mais próximo das correntes gnósticas de tradição oriental que a Igreja veio a combater precisamente em nome dum certo racionalismo de tradição greco-romana. Embora de formação mágico-religiosa, mesmo assim deveria ter um profundo conhecimento empírico da arte médica egípcia e um enorme sentido clínico porque o que Marcos descreve de seguida é digna dum grande mestre do diagnóstico clínico.

Marcos, 9: 21 E perguntou ao pai dele: Quanto tempo há que lhe sucede isto? E ele disse-lhe: Desde a infância. 22 E muitas vezes o tem lançado no fogo e na água, para o destruir; mas, se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos.

Claro que o problema da epilepsia ate à época moderna não era o diagnóstico, mas o do tratamento que, obviamente, não é de modo algum independente do conhecimento da sua natureza anátmo-fisiológica nem da sua etiologia. Por isso mesmo, Jesus só poderia oferecer a cura paliativa pela fé dos pais da criança. A fé, em termos médicos modernos reporta-nos não apenas para a importância clínica da confiança na relação médico/doente como para a eficácia curativa, ainda que reduzida mas não despicienda, dos placebos e das medicinas alternativas sobretudo nas doenças imaginárias e nas dores de alma mas também em certas neuroses quanto no acalmar do desespero dos incuráveis e na misericordiosa consolação dos moribundos de que o sucesso histórico do sacramento da extrema unção é dos exemplos católicos mais esclarecedores e para fazer aliviar o luto nada era mais eficaz do que as missas pelas almas dos mortos tal como a confissão para despejar o saco da má consciência!

Marcos, 9: 23 E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer; tudo é possível ao que crê. 24 E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade.

O povo rural de todos os tempos tem sido sempre uma profunda prova de fé na vida humana pois só um pai tão humilde e ignorante quanto extremoso e desesperado poderia exprimir-se com a inteligência prática dos simples dizendo mais ou menos isto: Senhor Jesus, eu estou disposto acreditar em ti se ajudares a minha incredulidade curando-me o filho”! Na verdade, suspeitando-se um grande desespero neste pai, desenganado até ai por todos os doutores e curandeiros e mesmo pelo próprios discípulos de Jesus, ainda assim esta cena nos enternece ao encontrar esperança lúcida bastante para dela desabrochar uma pequena flor de fé ainda mal semeada no coração deste aldeão pelo carisma de Jesus.

Marcos, 9: 25 E Jesus, vendo que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai dele e não entres mais nele. 26 E ele, clamando e agitando-o com violência, saiu; e ficou o menino como morto, de tal maneira que muitos diziam que estava morto. 27 Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu, e ele se levantou.

Na verdade, Jesus era um mago com classe e de sucesso pois, sabido e experimentado nas artes da sugestão e da gestão das aparências, soube esperar pela altura oportuna do final do ataque deste possuído por um “espírito surdo e mudo”, ou seja deste doente convulsivo em estado de total inconsciência como é típico do grande mal epiléptico.

Marcos, 9: 28 E, quando entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram à parte: Por que o não pudemos nós expulsar? 29 E disse-lhes: Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum.

Só quem está sob o efeito do fascínio sugestivo dum Jesus intemporal criado pela magia da letra simples e rústica dos evangelhos pode acreditar que Jesus fez o milagre de curar este epiléptico quando foi o próprio a afirmar que esta doença não tem cura “alguma, a não ser com oração e jejum”, coisa que, neste breve episódio, ele não teve seguramente tempo de fazer. Jesus, que não chegou a ser como Hipócrates um racionalista excessivo antes do tempo era afinal demasiado humano para que não tivesse que ser também suficientemente inteligência emocional para intuir que só uma fé irracional poderia fazer frente às certezas tirânicas do helenismo e do imperialismo romano do seu tempo. Afinal, Jesus sabia que para se ser um messias, mesmo do reino do céu, era preciso fazer política, que é o que a religião sempre foi também e onde mais vezes a verdade é só e apenas que parece ser e aquilo que os crentes acreditam!

 

JESUS, O BOM NADADOR

Jesus quando achava ser já tarde punha-se sempre a caminho de casa, numa cena a seguir à primeira multiplicação dos pães revela-se mais seguro no mar do que em terra, pois vemo-lo a nadar numa noite de ventos contrários seguramente que para fugir à multidão que o queria fazer rei à força.

 

Ver: TRIPLA PREDIÇÃO DA PAIXÃO/ 1ª MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES (***)

 

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Marcos, 6

 

 

48 E, vendo que se fatigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta vigília da noite, aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar adiante deles 49 mas, quando eles o viram andar sobre o mar, pensaram que era um fantasma e deram grandes gritos. 50 Porque todos o viram e perturbaram-se; mas logo falou com eles e disse-lhes: Tende bom ânimo, sou eu; não temais.

Mateus, 42: 24 E o barco estava já no meio do mar, açoitado pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 Mas, à quarta vigília da noite, dirigiu-se Jesus para eles, caminhando por cima do mar. 26 E os discípulos, vendo-o caminhar sobre o mar, assustaram-se, dizendo: É um fantasma. E gritaram, com medo. 27 Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu; não temais. 28 E respondeu-lhe Pedro e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. 29 E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. 30 Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me. 31 E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pequena fé, por que duvidaste? 32 E, quando subiram para o barco, acalmou o vento.

João 6: 16 E, quando veio a tarde, os seus discípulos desceram para o mar. 17 E, entrando no barco, passaram o mar em direcção a Cafarnaum; e era já escuro, e ainda Jesus não tinha chegado perto deles. 18 E o mar se levantou, porque um grande vento assoprava. 19 E, tendo navegado uns vinte e cinco ou trinta estádios, viram Jesus andando sobre o mar e aproximando-se do barco, e temeram. 20 Porém ele lhes disse: Sou eu; não temais. 21 Então, eles, de boa mente o receberam no barco; e logo o barco chegou à terra para onde iam.

Esta passagem tem feito o gáudio de todos os espíritos infantis que se deliciam com aventuras de heróis e super-homens! Obviamente que andar sobre o mar não é semanticamente diferente de “nadar” e está longe seguramente da improbabilidade que seria andar se pé no mar! Porém este erro semântico facilmente justificável por uma inépcia de tradução que em Mateus parece propositadamente milagreira pois esclarece que o que os outros evangelistas descrevem genericamente como “andar sobre o mar” significa especificamente “caminhar por cima do mar” é um dos muitos equívocos semânticos que, segundo as leis da informação, permitem à oralidade criar na crendice popular e infantil o maravilhoso fantástico das lendas e dos mitos.

Braça    = 1,85 metros ± 2 m * 30   = 60 m

Estádio =185 metros ± 200 m * 30 = 6 km

Obviamente que alguém se enganou com intenção de exagerar a distância que Jesus andou sobre o mar porque a medida em estádios costumam ser para caminhadas e no mar usam-se braças ou milhas! Que Jesus tenha nadado ou meramente mergulhado pelo mar dentro cerca de 60 metros não é nada de exagerado. 6 km seria quase metade da largura do mar de Tiberíades o que seria seguramente descrito de outra forma mais simples e clara como por exemplo *e já tendo navegado metade da distância...

Obviamente que Pedro revela aqui também que a faceta da sua personalidade que o veio a fazer chefe era mais do tipo daqueles heróis que ficam na história por serem aventureiros voluntariosos, precipitados e histéricos e não por serem desembaraçados e afoitos; calmos e responsáveis! Pedro, ainda que marinheiro seria um trapalhão a nadar e metia água com facilidade a falar!

 



[1] Papiro de Alexandria do sec. V antes de Cristo.

[2] [NOTE: The Order of Nazorean Essenes does not necessarily accept the claims of Notovitch in regards to finding an actual manuscript. The text itself is considered by O:N:E: as apocryphal and secondary.]

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